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Pai - Ouro de Mina

Passamos por fases durante a vida e é possível que em alguma delas tenhamos considerações diferentes sobre nosso pai.

Na infância eu o via como meu herói, capaz de me proteger de tudo, arrancar meus melhores sorrisos e me dar carinho mesmo com muita dureza. Seu Zé sempre foi homem humilde, de estatura baixa e muito firme. 

Na pré-adolescência, o instinto protetor de pai-herói acabou sendo interpretado como "o cara chato", rigoroso a ponto de não me deixar passar batom vermelho. Seria exagero? Estava preocupado, mas na transição entre fases achei que tamanha rigidez era por pura implicância. Que tolas somos nós.

Entrando na adolescência, arranjei um paquera, era o "garoto dos sonhos" de qualquer menina da escola, mas quem não gostou nada da história foi meu pai, prontamente ele me seguiu um dia e me flagrou conversando com ele e com duas amigas. Ele colocou o menino para correr, disse que ia dar uma surra nele e no pai, detalhe: em mim também. Eu, menina extremamente tímida, vê-lo aos berros pelas ruas, me deixou muito mal. Terminei com o garoto, fiquei com vergonha de sair de casa por causa dos vizinhos bisbilhoteiros e ele, com a decepção, ficou chateado e nossa relação mudou.

Daí em diante, no auge da adolescência, aos 15, mergulhei no mundo do rock (o rock em nada me prejudicou, muito pelo contrário, abriu minha visão para o mundo e me retirou do mundo encantado), meu figurino não saía do preto e me revoltei em silêncio, era um protesto. Eu queria dizer: Por que não podemos apenas sentar e conversar? O que de tão grave eu fiz? Mas não havia abertura de ambas as partes. De "pai-herói" passei a vê-lo como "pai-vilão".

Já com 17 comecei a namorar e iniciei também a fase de repensar, em tudo, rever conceitos, sentimentos, tentar viver com mais leveza no meu interior, comecei a ir a igreja e pedi à Deus para tirar aquele sentimento de mágoa do meu coração. Ele me ouviu. As coisas foram melhorando, com a quebra do silêncio a comunicação foi vindo devagarzinho, e foi melhor assim. Acho que um foi aceitando melhor o outro. 

Aos 21 comecei a ver o quanto eu tinha dele em meus traços de personalidade, talvez por isso não nos entendêssemos tão bem. Não imaginava quão parecido somos e isso me fez aceitá-lo e entendê-lo ainda mais. As peças na fase adulta começaram a se encaixar.

Hoje consigo sentir a grandeza do amor dilacerador que sinto por ele, posso garantir que sei (aos prantos) a intensidade do amor que ele sente por mim. Sou casada, mas ainda não tenho filho, porém posso ver proteção, cuidado e amor em cada ato que ele teve e que eu não compreendi no passado. Das broncas, aprendi a importância da disciplina e da retidão de caráter que precisamos ter para viver e sobreviver nesse mundo, da dureza na fala seguido de carinho no olhar, entendi que é necessário sermos firmes, mesmo amando, para indicarmos o caminho correto, com menos dores para os que passarão depois. Hoje o vejo como o "pai-pai" no sentido mais completo da palavra. 

Sei que ele não errou em nada, é brilhante que em meio a situação ele conseguiu dar aos filhos o melhor que tinha, repassar a importância da educação, do respeito ao próximo e grandeza de espírito, pois são os bens mais preciosos, principalmente quando somos de família pobre. Se hoje estou na faculdade foi pelos incentivos dele, se estou formando uma família é pelo exemplo que ele me dá, se consegui um trabalho é pelo apoio recebido e se

em meios as dificuldades consigo me manter firme graças a força demostrada durante uma vida inteira de lutas.

Domingo ele abriu o coração e falou sobre sua trajetória de vida, confesso que segurei as lágrimas, o engraçado é que em uma conversa eu compreendi tudo o que demorei décadas para entender. Cada ponto se ligou em uma grande rede e tudo fez sentido.

A moral da minha história: Converse. Um simples diálogo, na porta de casa, ao final da tarde pode esclarecer muita coisa. Se precisar deixe a poeira baixar, mas não deixe a oportunidade de ficar em paz com quem você mais ama.

#PaiTeAmo #HistóriaDeAmor #Pai-Pai

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